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Consecuencias
 
Noviembre 2008 | #2 | Índice
 
O semblante permite a parceria [*]
Romildo do Rêgo Barros [**]
 

Romildo do Rego Barros"João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia. Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história".

Este poema de Carlos Drummond de Andrade, conhecido de todos, chama-se Quadrilha e foi escrito em 1930. É dividido em duas partes bem diferentes: a primeira trata da busca amorosa como um movimento de quadrilha no qual os pares se sucedem, não exatamente ao ritmo da escolha de cada dançarino, mas da cadência musical que faz e desfaz os pares, para refazê-los mais adiante, em uma cadeia contínua que só se interrompe quando surge Lili, que não amava ninguém.

Na segunda parte do poema, os pares estão desfeitos, cada personagem tomou um caminho, e em lugar dos rodopios da quadrilha surgem as diferentes figuras do destino, onde a história finalmente se cumpre, em ruptura com o deslizamento dos objetos de amor: "João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia. Joaquim suicidou-se e Lili" – não por acaso a única que não amava ninguém – "casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história".

Em 1938, mais ou menos na mesma época do poema, Lacan chamava a atenção, no seu texto sobre a família, para uma característica da família humana, apesar de evidentemente não achar que se trata de um dado da natureza: "o pai, a mãe e os filhos são os mesmos da família biológica"[1]. Ou seja, aquele que é chamado de pai é o mesmo que engendrou, aquela que se chama mãe é a mesma que pariu, e quem se anuncia como filho é o produto natural do encontro dos dois. Terá havido um tempo, talvez, em que os semblantes sociais recobriam com alguma eficácia a função biológica, a tal ponto que se poderia achar que não existem semblantes na natureza. Realizava-se de certa forma a idéia de Émile Durkheim, que concebia a sociedade como um corpo com suas funções particulares, mais ou menos no mesmo sentido da definição da família como a célula-mater da sociedade proposta pelo nosso Ruy Barbosa, em um poema de humor, aliás, bastante depressivo.

Os tempos mudaram. Hoje, é possível – como me aconteceu esta semana – ler em uma revista online de sociologia o seguinte (tratava-se de um convite para o envio de artigos sobre políticas de família): "[...] as técnicas de reprodução assistida, particularmente por meio da doação de gametas, levam a diferençar" – talvez a idéia seja mais separar do que diferençar "laços de sangue e laços de família, pais biológicos e pais sociais. A partir dessas transformações, a criança, e não mais o casal, tende a tornar-se o elemento fundador da família".[2]

Esta é a época sobre a qual Jacques-Alain Miller pôde afirmar: "ninguém mais diz que é preciso um homem e uma mulher para fazer uma criança. Trata-se de um resquício (survivance) de algo anterior à entrada do cientista como terceiro nesse assunto"[3]. Com a entrada em cena desse novo terceiro, e a hegemonia do discurso da ciência, romperam-se alguns semblantes e surgiram novas realidades. Uma delas pode ser o que indica a conclusão na frase que extraí da revista de sociologia: "a criança, e não mais o casal, tende a tornar-se o elemento fundador da família".

Não é que a criança tenha passado a ocupar o lugar antes reservado ao pai – isto é uma banal fantasia sobre a etiologia da perversão – ou que esteja assumindo na sua totalidade a potência narcísica de "sua majestade o bebê". O que ocorre é uma mudança em seu estatuto de objeto: de objeto que falta no desejo dos pais, capaz, portanto, de se articular como sintoma, como "verdade do casal familiar", segundo a conhecida expressão de Lacan em sua carta a Jenny Aubry[4], a criança passa a objeto mais-de-gozar da satisfação, em tudo comparável ao objeto do excesso consumista. Isto a situa, nos piores casos, ou como agente de uma violência que desconhece as fronteiras que separam as gerações, ou como vítima, quando se torna o objeto real do deixar-cair (niederkommen) da passagem ao ato, cuja literalidade temos verificado por duas ou três vezes no Brasil recente, na esteira do caso da pequena Isabela Nardoni.

Sabe-se hoje melhor do que antes, sem dúvida, e em boa parte por causa da psicanálise, que as montagens imaginárias podem ser bem precárias, quando há uma disjunção do simbólico. Entende-se melhor, por exemplo, que a transmissão simbólica passa ao largo da reprodução biológica, da "viagem através da carne", expressão que Drummond usou certa vez em um poema ("Retrato de Família") para definir a família.

Tudo isso implica, naturalmente, o direito – cuja definição mais simples se refere a uma distribuição de gozo – e os seus semblantes. Jacques-Alain Miller fala a este respeito do "direito de gozar" como um correlato das conquistas atuais da ciência, que "comportam e si mesmas um logro que torna muito mais insistente o apelo a um real, ao real do gozo, que não é semblante".[5]

Creio que podemos distinguir dois sentidos para a expressão "direito de gozar", que tem à primeira vista um fundo paradoxal. São sentidos que refletem as características de duas épocas históricas diferentes, e que mostram também relações diversas entre os dois termos, direito e gozo.

O primeiro sentido se refere ao direito ao gozo como paródia, tal como foi consagrado pelo Marquês de Sade, em particular no panfleto, digamos, "para-revolucionário", chamado Franceses, mais um esforço se quereis ser republicanos. A reivindicação do gozo para todos confina, na verdade, com o ponto em que o universal se revela impossível: basta que um só sujeito, momentaneamente em posição de vítima, não consinta com a estratégia de gozo do libertino, para que toda a arquitetura sadiana desmorone. O panfleto vem de uma época em que novos significantes-mestres chegavam ao zênite, e o objeto se produzia como o resto que marca o impossível do "para-todos". É o esforço – sobretudo literário, mas também político – do Marquês em dar fala ao objeto que termina por delinear os limites da república, tornando ao mesmo tempo possível de se ler sem contradições insuperáveis a Crítica da razão prática, de Kant, cuja verdade, segundo Lacan, o panfleto representa como seu suplemento.

Mas há um segundo sentido e um segundo momento que devemos tentar entender, porque diz respeito justamente aos nossos tempos. Aqui já não se trata da hegemonia do significante-mestre, mas do objeto. Isto muda a questão do direito ao gozo.

Aqui temos uma dificuldade, uma vez que a vigência do direito depende de uma certa consistência dos seus semblantes: idealmente, todo espaço tenderia a estar no âmbito jurídico. Nenhum ato deixaria de ter uma expressão legal, mesmo que fosse, por exemplo, como não imputável. Da mesma forma, qualquer setor da sociedade ou da cultura tenderia a encontrar expressão em algum semblante jurídico, que marca o limite além do qual o gozo não seria mais regulado. Ora, em uma época em que esses semblantes vacilam, o objeto já não é um simples resto cuja exclusão dá consistência ao universal, mas, pelo contrário, ele próprio serve de fundamento para alguns laços sociais, como ocorre nas chamadas "comunidades de gozo", muitas das quais nem se referem e nem propriamente fazem objeção a nenhum princípio jurídico universal.

A relação entre os semblantes e as parcerias, seja qual for, é de estrutura: não há parceria sem semblantes. No caso da parceria sexual, o próprio termo "parceria", que contém a idéia de parte, ou de parcialização, os semblantes recobrem a impossibilidade de que os parceiros se completem. Ou seja, se a parceria é necessariamente um conjunto de partes, se compõe de alguma forma uma unidade, está em contradição com a separação, que está implícita no próprio termo sexo, ou sexual.

Os semblantes da parceria permitem o encontro dos sexos, que são separados. Quando falamos de comédia dos sexos, fazemos uma escolha, no mínimo literária. De fato, por que não se trataria de uma tragédia dos sexos, ou de uma epopéia dos sexos? Teríamos tantas razões e tantos exemplos que iriam nessas direções... Tantos encontros amorosos terminaram em tragédia, na literatura e na vida... Só para citar alguns conhecidos de todos: Tristão e Isolda, Romeu e Julieta, Édipo e Jocasta, Werther e Lotte, ou, mais perto de nós, os personagens machadianos Bentinho e Capitu... Tantos outros, ou até os mesmos, nos foram contados como sagas...

Digamos que a escolha se justifica a partir do fato de que o resíduo do encontro entre os sexos é de caráter cômico, e não trágico ou épico. Ou seja, o que excede ao semblante desse encontro se estrutura como comédia.

 
Notas
*

Apresentado no Colóquio sobre o semblante: A comédia dos sexos no século XXI da EBP-Rio, com a participação de Graciela Brodsky. Plenária II: O semblante e a parceria, Rio de Janeiro, 05 de julho de 2008.

** Analista Membro da Escola – AME. Membro da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP) e da Associação Mundial de Psicanálise (AMP).
1- Lacan, J. "Os complexos familiares na formação do individuo". Em: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, p. 31.
2- Revue Calenda. " Nouvelles conjugalités et nouveaux modèles familiaux?". Chamado à contribuição, publicado em 10 de junho de 2008. http://calenda.revues.org/nouvelle10656.html
3- Miller, J.-A. "Introdução à leitura do seminário da angústia de Jacques Lacan". Em : Opção lacaniana,n° 43. São Paulo: Eolia, 2005, p. 55.
4- Lacan, J. "Nota sobre a criança". Em: Outros escritos, op. cit., p. 369.
5- Miller, J.-A. Op.cit.
 
 
 
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